sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Bem bom do infinito


O silêncio do ser sozinho que se alimenta desta solidão e arrota e peida e cospe e excreta o misterioso brilho ofuscado do brilhante olhar velho olhar que come este vazio preenchido.As cinzas malditas cinzas no chão e o bom senso vestido de responsabilidade determina qual o momento mais adequado para a limpeza da chaminé. Não basta passar o pano, é preciso lavar o pano depois (a não ser que seja limpo com papel, mas é preciso jogar o papel no lixo).Existe a sensação de ter alguém no trinco querendo abrir a nossa porta, que bater virou jogar cinzas sagradas cinzas pela janela do apartamento, do alto (do pedestal talvez) porca, porta, rima torta pouco importa.O escritor subiu no terceiro andar e pulou do pedestal para tomar ar. Na vida o sentido do existir nao está definido e a idéia de infinito é o próprio mistério do sagrado que é o existir. Ninguém disse que era fácil alcançar estrelas, morar no bem bom do infinito. Entao eu compro o infinito e dou pra quem eu quiser.

domingo, 9 de novembro de 2008

sem Conserto

Não consigo encontrar
Um lugar apropriado para o fim.
O tempo entrou em coma,
Perdi minhas memórias e nem percebi
Um breve instante foi
Um presente que eu ganhei,
mas ainda não abri
Tempo perfeito não
Deixa sobras no futuro
Igual a mim, igualzinho a mim
Igual a mim...Qualquer um que fotografar
Os pesadelos de quem não volta a dormir
Vai andar olhando pro céu
Pois vai sempre estar a um passo de cair
Um breve instante foi
Um presente que eu ganhei, mas ainda não abri
Seguindo em frente entãoSem memória, e sem futuro
É melhor assim, bem melhor assim,É o melhor pra mim...

domingo, 2 de novembro de 2008

Carta a Stalingrado

Stalingrado...Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!O mundo não acabou, pois que entre as ruínas outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, e o hálito selvagem da liberdade dilata os seus peitos, Stalingrado,seus peitos que estalam e caem, enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.Os telegramas de Moscou repetem Homero.Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novoque nós, na escuridão, ignorávamos.Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.Saber que vigias, Stalingrado,sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantesdá um enorme alento à alma desesperadae ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.Débeis em face do teu pavoroso poder, mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, aprendem contigo o gesto de fogo.Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!Que felicidade brota de tuas casas!De umas apenas resta a escada cheia de corpos; de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?Uma criatura que não quer morrer e combate, contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
(Andrade, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Record, 1987)