quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Trajetória

Composição: Arlindo Cruz / Serginho Meriti / Franco

Não perca tempo assim contando história
Pra que forçar tanto a memória
Pra dizer
Que a triste hora do fim se faz notória
E continuar a trajetória
É retroceder
Não há no mundo lei que possa condenar
Alguém que a um outro alguém deixou de amar
Eu já me preparei, parei para pensar
E vi que é bem melhor não perguntar
Porque é que tem que ser assim
Ninguém jamais pôde mudar
Recebe menos quem mais tem pra dar
E agora queira dar licença, que eu já vou
Deixa assim, por favor
Não ligue se acaso o meu pranto rolar, tudo bem
Me deseje só felicidade, vamos manter a amizade
Mas não me queira só por pena
Nem me crie mais problemas
Nem perca tempo assim contando história...

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Seu Luxo é Meu Lixo

Eu queria ver se ela no meu lugar entenderia. Não. Com certeza. Eu no dela também não entenderia. Não seria tão omisso dos meus sentimentos, não compreendo como podes ser compreensiva a tal com esse capricho seu. No meu lugar você não seria tão justa. Justiça pouca essa mas ela diante disso ainda era pouca demais. Mas eu queria. Gostaria de tocá-la mesmo que ela não entenda merda nenhuma, com todas as letras, de amor. Ela é pouco demais. Eu estava pensando até em me dar um tiro qualquer dia. Imbecil. Soube que partiu. O meu peito já sabia, a novidade foi pra ela que não tinha se dado ao luxo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Esquecer, mas não esuqecer de esquecer.

De repente, o final. Que máximo...Guarde as cartas, esconda a cara e tire do gancho o telefone, que é pra ninguém te ligar. Ninguém não. Ninguém eu. Pra me esquecer faça as malas e viaje de ônibus pra uma cidadezinha qualquer. Conheça uma pessoa qualquer. Dê qualquer abraço e qualquer beijinho. Me corta no meio feio papel de pão que vira seda. Me limpa do seu poro. Esquece de mim. Do meu beijo. Do meu cheiro, do meu veneno você não precisa mais provar. De repente se as coisas tivessem que ser sempre fáceis o amor não teria razão de existir. O amor não é fácil. Dói, corrompe, corrói. Enerva, alucina, assassina. O meu amor pode estar em você. E o seu vai ficar sempre em mim, mas e daí? Oque fazer quando não há mais desejo? Quando você corre pra qualquer lugar pra esquecer do meu beijo. Esquecer... Esquece e vai dar uma volta! Um voltinha qualquer na avenida. Compra um vinho barato, olha feio pra quem me conhece na rua, porque afinal TODOS DEVEM TE APOIAR. Mas pra isso você precisa dar os teus motivos. Eu não quero ser amor no seu peito, mas não quero ser a bala do tambor. A bala do seu amor morto. Eu não quero te matar de ódio e nem precisa sentir saudade. Sim, saudade sinta. Sinta saudade da minha companhia permanente, das frutinhas que comemos voltando do atletismo. Sim, sinta, não há problema algum. Deixe algo silencioso e inexplicável falar por nós. Quando é fim é fim e dói. Mas... é disso mesmo que eu estava falando. A amor dói e pra se dispor ao amor é preciso ser corajoso. É preciso ter coragem pra olhar pro lado, aproximar a pele, dar beijo no rosto, beijo na mão, beijo na boca. Tirar a roupa, fazer amor. Amor é isso. Amor é ir na casa da família dela, sabendo que a irmã me odeia. E daí? Sempre acontece... Os finais são tristes mesmo. Finais sempre tem um quê de amor. Uma pitada de desgosto, um riso jogoso de liberdade na cara de quem terminou. Mas pra terminar também requer coragem. O amor é coragem o tempo todo. É riscar o nome dela na folhinha ao lado do telefone. Arriscar ligar pra falar dos desejos. Se arriscar a tomar um não. A amor maior é eterno. O amor acaso nada é. Nem é amor. Eu juro que quero ter deixado algo em você. Juro que deixou algo de muito valioso em mim. Deixou o sorriso. Deixou as mãos magrinhas, o cheiro gostoso. Deixou a bermuda minha que você usava pra dormir. Deixou a porta aberta pra entrar um outro alguém no seu coração. Bravo. Eu também. Mas eu não quero me prender a ninguém, a não ser à mim mesmo. Eu quero sair sozinho pra avenida... e te encontrar. Você com o olhar feio e eu com o riso jogoso. E a gente se olha, se esbarra, se esnoba. E faz oque? Esquece! A gente tenta esquecer, volta pra casa e tira as cartas da gaveta, mas com a cara escondida e o telefone fora do gancho, que é pra eu não tentar te ligar, porque afinal, eu também tenho que ESQUECER.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Bem bom do infinito


O silêncio do ser sozinho que se alimenta desta solidão e arrota e peida e cospe e excreta o misterioso brilho ofuscado do brilhante olhar velho olhar que come este vazio preenchido.As cinzas malditas cinzas no chão e o bom senso vestido de responsabilidade determina qual o momento mais adequado para a limpeza da chaminé. Não basta passar o pano, é preciso lavar o pano depois (a não ser que seja limpo com papel, mas é preciso jogar o papel no lixo).Existe a sensação de ter alguém no trinco querendo abrir a nossa porta, que bater virou jogar cinzas sagradas cinzas pela janela do apartamento, do alto (do pedestal talvez) porca, porta, rima torta pouco importa.O escritor subiu no terceiro andar e pulou do pedestal para tomar ar. Na vida o sentido do existir nao está definido e a idéia de infinito é o próprio mistério do sagrado que é o existir. Ninguém disse que era fácil alcançar estrelas, morar no bem bom do infinito. Entao eu compro o infinito e dou pra quem eu quiser.

domingo, 9 de novembro de 2008

sem Conserto

Não consigo encontrar
Um lugar apropriado para o fim.
O tempo entrou em coma,
Perdi minhas memórias e nem percebi
Um breve instante foi
Um presente que eu ganhei,
mas ainda não abri
Tempo perfeito não
Deixa sobras no futuro
Igual a mim, igualzinho a mim
Igual a mim...Qualquer um que fotografar
Os pesadelos de quem não volta a dormir
Vai andar olhando pro céu
Pois vai sempre estar a um passo de cair
Um breve instante foi
Um presente que eu ganhei, mas ainda não abri
Seguindo em frente entãoSem memória, e sem futuro
É melhor assim, bem melhor assim,É o melhor pra mim...

domingo, 2 de novembro de 2008

Carta a Stalingrado

Stalingrado...Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!O mundo não acabou, pois que entre as ruínas outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, e o hálito selvagem da liberdade dilata os seus peitos, Stalingrado,seus peitos que estalam e caem, enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.Os telegramas de Moscou repetem Homero.Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novoque nós, na escuridão, ignorávamos.Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.Saber que vigias, Stalingrado,sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantesdá um enorme alento à alma desesperadae ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.Débeis em face do teu pavoroso poder, mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, aprendem contigo o gesto de fogo.Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!Que felicidade brota de tuas casas!De umas apenas resta a escada cheia de corpos; de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?Uma criatura que não quer morrer e combate, contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
(Andrade, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Record, 1987)